Momentos antes de iniciar este texto, listei diversos temas sobre os quais eu poderia principiar este “nosso diálogo”; no topo da lista — obviamente — estava incluso o intuito de me apresentar. Pensei em falar um pouco a meu respeito, para que o leitor pudesse sentir-se mais próximo, mas logo repensei e resolvi deixar que o próprio desenrolar de nossas “conversas” faça isso por mim. Afinal de contas, nunca somos totalmente sinceros ao falar de nós mesmos; isso não significa que somos mentirosos. O que ocorre é que sempre que falamos a nosso próprio respeito, recorremos a abstração de nossos mais íntimos desejos; isso não significa cometer pecado. “Ao lermos uma autobiografia, conhecemos quem o personagem principal gostaria de ser e não quem ele realmente é.” Enfim…

Sendo eu um severo crítico de mim mesmo, receando apresentar-me de maneira indevida, vou abster-me desta função, pois não quero que o leitor se deixe levar por minha auto visão e passe a me criticar e/ou massacrar, assim como eu mesmo já faço; modéstia à parte: massacro-me até com certa perfeição.

Falando em criticar e massacrar, sendo eu músico e entusiasta de outras artes, escolhi como foco inicial dos nossos diálogos um assunto — do qual sou freqüentemente questionado — que é mais amplo, complexo e importante do que aparenta ser sob um olhar leigo, desinteressado e/ou mesmo desatento, pois tem a ver com o “espírito humano”.

“Por que a música atual é tão ruim?”, pergunta que ouço com freqüência.

“Será que (só) a “música” atual é tão ruim?”, pergunta que faço a mim mesmo sempre que ouço a indagação acima.

Poder-se-íamos dar uma resposta generalizada e vazia tanto quanto a própria pergunta:

“Pois é… Está tudo assim, uma bela porcaria”, seguida de um “tapinha” nas costas do questionador e de um alegre convite para uma cerveja. Desta maneira poderíamos nos despedir aqui mesmo, com um convite para um café — pois não sou adepto ao álcool. Mas não é esse o nosso intuito.

Não é sempre que me manifesto a respeito de tal questão, mas arrisco dizer que quando formulo uma resposta — seja por educação ou pela falta dela —, a princípio, não penso na música em si, tampouco no “cenário” musical; interajo de acordo com a percepção que tenho do meu interlocutor.

No decorrer de nossos diálogos, através dos textos que aqui trarei, ficará (assim espero) nítido ao leitor que este assunto é mais sintético do que muitos imaginam e que a questão vai muito além de um simples julgamento ou de uma mera opinião a respeito do que é bom ou ruim. Lembrando que quando um indivíduo emite julgamento ou expressa opinião, faz de acordo com sua experiência, cultura, educação, valor próprio e senso; e infelizmente sua manifestação pode ter como régua de medidas a opinião que impera no senso comum. A opinião das massas; que extrai suas bases do inconsciente coletivo.

Sendo a música uma arte abstrata — e diga-se de passagem: a mais expressiva de todas as artes —, expressar o seu significado em palavras pode ser uma tarefa frustrante, quem dirá formar uma crítica certeira a respeito de sua essência.

Aaron Copland já dizia: “Falar ou escrever sobre música são tarefas de suma ingratidão.” Pois é… Ele tinha razão. Portanto, peço paciência ao leitor e de antemão prometo usar de toda minha capacidade e sinceridade na tentativa de desenvolver o tema proposto a esta coluna. Aproveito para esclarecer que este assunto será dividido em diversos artigos, visto sua extensão e complexidade.

Para que se faça uma crítica adequada, o crítico deve privar-se de incorrer ao filistinismo, que grosso modo consiste em “não” perceber a arte onde ela existe, mas contemplá-la onde ela não existe, e para isso é necessário que se tenha algum conhecimento sobre o objeto.

Pois bem… Antes de nos embrenharmos na tentativa de formatar uma resposta aceitável para a interrogação: “Por que a música atual é tão ruim?”, há inúmeros fatores que devemos considerar, e que levam, não diretamente à resposta, mas primeiramente, aos motivos pelos quais surge tal questionamento.

Durante os próximos artigos — para melhor compreensão do assunto — falaremos a respeito das propriedades básicas do som, dos elementos da música, de sua simbologia, textura, estrutura, e etc.; conhecimentos necessários para uma audição inteligente, que antecede a boa crítica.

Por fim, sem a mínima intenção de estender esta singela apresentação, deixo a pergunta: Será que há uma resposta coerente à uma questão que parte de um julgamento tão generalizado, sem que antes entendamos um pouco sobre o assunto e que sejamos críticos de nós mesmos? Veremos…

Um grande abraço a todos! Até breve.

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