Como disse Plotino em Enéadas: “A beleza é o acordo na proporção das partes entre si, e delas com o todo”. Um “objeto” necessita ser inteiro para que possa “ser”. Para ser inteiro, este “objeto” necessita que todas as suas partes estejam em harmonia, para assim formar o conjunto.

A música é um sistema de símbolos (a palavra “Símbolo” deriva do grego συμβάλλειν, que significa “juntar”) que desperta a imaginação através dos sentidos auditivos — o sentido é a perfeita relação entre o signo e seu significado. Para compreensão desta imagística em toda sua essência, necessita-se simbolizar em separado os elementos que a compõe: ritmos, melodias, harmonias, texturas e dinâmicas.

Os movimentos harmônicos, melódicos e rítmicos formam a significação simbólica da música. Tais elementos invadem a psique humana com suas formas abstratas, e conectam as sensações aos significados.

É muito óbvio que para uma análise ampla e consciente de qualquer obra de arte, seja das letras, da pintura, da escultura ou da música, se faz necessário primeiramente pensar em separado aquilo que em sua essência é junto. Para tanto, hoje falarei a respeito das “propriedades do som”.

Kant iniciou sua “Crítica da Razão Pura” com o seguinte enunciado: “Quaisquer que sejam o modo ou os meios pelos quais um conhecimento se relaciona aos ‘objetos’, aquele pelo qual se relaciona imediatamente a eles, e a que todo pensamento como meio se dirige, é a intuição. Ela só tem lugar, porém, na medida em que o ‘objeto’ nos é dado; isto, porém, só é por seu turno possível, pelo menos para nós, seres humanos, caso afete a nossa mente de um certo modo. A capacidade (receptividade) de receber representações através do modo como somos afetados por ‘objetos’ denomina-se sensibilidade. Os ‘objetos’ nos são dados, assim, por meio da sensibilidade, e apenas ela nos fornece intuições; eles são pensados, porém, por meio do entendimento, e deste surgem os conceitos. Todo pensamento, contudo, seja diretamente (directe) seja por rodeios (indirecte), precisa afinal, por meio de certas características, referir-se à intuição – em nós, portanto, à sensibilidade -, pois de outro modo nenhum ‘objeto’ pode ser-nos dado.”

A música como “objeto” está a priori diretamente conectada à sensibilidade, à intuição, e aos conceitos.

Assim como a visão, a audição é uma sensação, a qual, segundo Kant, é “o elemento puramente subjetivo da nossa representação das coisas que estão fora de nós, mas é propriamente o elemento material dessa representação, o real, aquilo com que é dado algo de existente”. Dependendo das capacidades e conhecimento daquele que ouve, a “sensação” pode abranger a totalidade do objeto. No caso da música: a sensação reúne todos os elementos presentes, captados através do órgão sensório.

Quando somos afetados pela representação de um “objeto” através da intuição, que nada mais é que “a relação direta e imediata com um objeto”, pode-se dizer que tal “relação” ocorre de maneira empírica, através da experiência adquirida na presença efetiva do objeto.

Plotino (205 – 270 d.C) já se referia a intuição como um “conhecimento imediato”.

Seguindo o raciocínio de Kant, a intuição adquirida de maneira empírica é denominada fenômeno, o que a seu entender representa “o objeto do conhecimento enquanto condicionado pelas formas da intuição”, ou seja: é algo que não está no objeto em si, mas apenas em sua relação entre o objeto e o sujeito.

A sensação correspondente a manifestação de um fenômeno é o que pode-se chamar de matéria, a qual, segundo Platão, é “a Mãe das coisas naturais”, que “acolhe em si todas as coisas sem nunca assumir forma alguma que se assemelhe às próprias coisas…”.

Sabemos que a música — diferente de outras artes que se comunicam através de manifestações objetivas, valendo-se de um modo de expressão exterior, tal como a pintura, a dança ou a arquitetura — é totalmente subjetiva e não se manifesta através de formas espaciais; em contrário: sua expressão e absorção, sua forma e conteúdo são abarcadas em plena subjetividade.

Diferente do pintor, por exemplo, que com o uso de pincel, tela e tinta é capaz de representar aos olhos as mais variadas formas existentes na realidade, o músico tem como forma de expressão apenas uma “substância” invisível, ou seja: a música em sua manifestação é um fenômeno, e sua matéria nos é dada a posteriori, através da experiência auditiva, na qual o sujeito capta pelo ouvido o som emitido por um instrumento ou por uma voz humana.

O som, que é a “matéria” da música, é de natureza abstrata, o que torna impossível ao músico reproduzir através de sua arte qualquer “imagem” real, restando apenas a missão de, através da manipulação subjetiva dos sons, fazer ressoar a alma do ouvinte. O ouvinte, por sua vez, não é um simples espectador, pois assim que o som lhe chega aos ouvidos é exigido de sua capacidade interpretativa que relacione os sons com imagens disponíveis em sua mente. Entretanto tais imagens já devem estar a priori na mente do ouvinte, para que de maneira transcendental ele atribua forma ao fenômeno sonoro.

Segundo considerações feitas por Kant com relação ao termo transcendental, tal fenômeno consiste “… no conhecimento da possibilidade do conhecimento ou do uso dele a priori.” Ou seja: “não é o que está além da experiência”, mas sim “o que antecede a experiência (a priori), mesmo não se destinando a outra coisa senão a possibilitar o simples conhecimento empírico.”

Ao criar os símbolos que conectam a matéria abstrata da música à sua imaginação, o ouvinte amplia suas capacidades auditivas e interpretativas, resultando numa audição inteligente, crítica, prazerosa e conceituosa — processo que abrange a descrição, a classificação e a percepção futura da significância de um objeto.

O ser humano simboliza tudo o que vê, o que ouve, o que pensa, o que fala, o que escreve, e o que lê. Sabemos de antemão que a música é captada pelo ouvido e recebida pela mente, e a partir de tal recepção, a nossa mente associa a manifestação sonora aos símbolos existentes a priori em nosso imaginário. É evidente que cada indivíduo só é capaz de simbolizar os sons captados de acordo com suas competências individuais. Por vezes — não raro — ocorre de um grande número de pessoas simbolizar “algo” da mesma forma, e é aí que alguns “gurus” se aproveitam e constituem religiões, sociedades, grupos ideológicos e demais “organizações” humanas. Por enquanto, e apenas por enquanto, deixemos de lado o que é das “massas” e atentemo-nos nas capacidades individuais do ser.

A figuração dos sons musicais — apesar de subjetiva — pode ter como inspiração sua própria estrutura arquitetônica. Um músico conhecedor da linguagem musical é capaz de simbolizar uma melodia em sua mente enquanto ouve uma sucessão de notas. Quando o músico compreende o sentido melódico de cada uma destas notas, de acordo com a organização harmônica e rítmica, ele está dando forma ao fenômeno; ou seja: simbolizando.

Hegel foi um desgraçado que, em meio sua dialética negativa, responsável por desencaminhar a arte, mediante a falsidade de suas teorias, cunhou boas frases, se analisadas separadamente…

“Os sons têm, efetivamente, uma íntima relação com os sentimentos da alma e apresentam uma certa correspondência com as suas atividades, mas tudo se limita a uma vaga simpatia, embora uma obra musical, quando saída realmente do fundo da própria alma e rica em sentimentos, seja capaz de exercer uma ação profunda sobre a alma daqueles que a escutam.” 

Hegel – O Sistema das Artes.

Os nossos sentimentos e expressões passam de uma vaga sensação subjetiva a um plano mais concreto e objetivo quando tomamos posse de algum conhecimento estrutural, e valendo-se de tal conhecimento, conectando-o ao conhecimento de nós mesmos, criamos as imagens necessárias para uma sintonia perfeita.

Esta conexão empírica entre o objeto e o sujeito transformam os sentimentos em intuições e representações mais precisas, transcendendo aquelas sensações abstratas de nossas impressões anteriores a um campo nítido de nossa consciência, alterando assim o estado de nossa alma, e manifestando em nós os estados de alegria, felicidade, melancolia, tristeza, júbilo, serenidade, angústia, amargura, amor, respeito, adoração, etc.

Com intuito de auxiliar o simbolismo, vamos a alguns aspectos do caráter arquitetônico da música…

As propriedades do som

Temos três aspectos importantes a saber, que na união de sua essência, juntamente com o “timbre” (do qual falamos no artigo anterior) formam o “todo” que consiste a matéria musical: o som.

Qualquer som — seja uma nota musical ou um ruído — tem em sua composição as seguintes propriedades.

A intensidade

“É a propriedade do som ser forte ou fraco.”

É muito comum que se confunda as características desta propriedade com a altura das notas. Por exemplo: quando alguém está ouvindo música em alto volume e alguém recomenda para que se baixe o som, mesmo que o pedido seja entendido e realizado, o pedinte vale-se de um termo incorreto. No caso em questão o som não está alto, e sim intenso (forte). O correto seria dizer: diminua este som (sua intensidade; sua força).

A altura

“É a propriedade do som ser grave ou agudo.”

O som grave é um som “baixo”, grosso, encorpado, encontrado, por exemplo, na “extrema-esquerda” de um piano, ou nas cordas soltas de um contrabaixo.

O som agudo é um som “alto”, fino, estridente, encontrado, por exemplo, na “extrema-direita” de um piano, ou nas primeiras cordas de um bandolim.

Quando alguém me pede para “baixar a música”, eu pergunto: “para qual tom?”

A duração

“É a propriedade do som ser curto ou longo.”

Uma nota que desaparece logo em seguida ao seu surgimento, um staccato, por exemplo, é considerada uma nota de curta duração.

Uma nota contínua, que se estende por algumas pulsações ou até mesmo por um ou mais compassos, pode ser entendida como uma nota longa. Quando um violinista deslisa toda a extensão de seu arco em uma única nota, por exemplo, temos aí uma nota de longa duração.

O timbre (Esta propriedade foi apresentada na coluna anterior como parte dos elementos básicos da música, e agora é apresentada aqui como parte das propriedades do som).

“É a qualidade do som que possibilita o reconhecimento de sua origem.”

Também conhecido como “colorido tonal”, é o elemento que caracteriza um instrumento musical ou uma voz específica, presentes em uma composição. Quando reconhecemos o som de um violão, por exemplo, é porque distinguimos o seu timbre dos demais instrumentos.

Sugestões…

Considerando apenas os elementos básicos da música e as propriedades do som apresentados, já é possível ao leitor (ouvinte), mesmo que a grosso modo, simbolizar o que lhe chega aos ouvidos.

Sugiro agora que o leitor faça um exercício auditivo simples, que consiste em isolar-se por alguns instantes e, de olhos fechados, captar sonoridades do ambiente, ou mesmo puxar alguma de suas memórias, e, após isolar um som, identificar as propriedades que o constituem: sua intensidade, duração, altura e timbre.

Em seguida, escolha uma música de sua preferencia e, cuidadosamente, procure separar em sua mente cada instrumento presente; bateria, guitarra, violão, contrabaixo, voz, piano, etc. e acompanhe os seus movimentos por toda duração da música. Possivelmente você precise ouvir a mesma música diversas vezes até que consiga um resultado satisfatório. Não hesite. Faça-o. Com o tempo você conseguirá prestar atenção simultânea em dois instrumentos, depois em três e assim por diante.

É bem verdade que você pode treinar a sua percepção auditiva a todo instante, afinal de contas, não há momento do dia que não lhe chegue algum som pelos ouvidos.

Exemplos…

– Sem sair do lugar, escolha um som em movimento, como o de um carro passando, por exemplo, e siga-o com a audição até que ele desapareça.

– Conte os passos de alguém que se movimenta de um local a outro da casa, ou em outro ambiente qualquer, sem se valer da visão.

– Enquanto almoça ou janta, de olhos fechados ou direcionados a um ponto fixo, conte quantas vozes consegue ouvir simultaneamente dentro do restaurante ou lanchonete.

– Dando seqüência ao exemplo acima, escolha uma das vozes presentes e atente-se a ela, isolando-a das demais.

– Acorde bem cedo, lá pelas 5 da manhã, saia até sua varanda ou calçada e perceba os sons que acordam junto com o despertar do dia.

– No fim do dia, deite em sua cama e puxe pela memória os sons que lhe chamaram atenção durante o dia.

– Enquanto caminha pelas ruas, perceba os sons e diferencie-os; os sons da natureza, sons humanos, sons mecânicos, sons eletrônicos.

Estes são apenas alguns míseros exemplos possíveis de se realizar sem a necessidade de conhecimento musical ou do apoio de um instrumento, mas lembre-se: só conseguimos expressar o que nossa mente é capaz de perceber ou construir, e o caminho para alcançar um alto nível de percepção requer concentração, dedicação, imaginação e conhecimento.

Este tema não se exaure aqui, pois estamos apenas no início.

Um grande abraço! Até breve!

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