O que é música?

Em princípio é bem possível que tal pergunta “pareça” um tanto trivial, pois é bem provável que passe pela mente do leitor a idéia de que tal resposta seja algo extremamente simples de se fornecer; entretanto acredito que esta opinião venha a mudar logo na primeira tentativa, se acaso o leitor “tentar” formatar uma resposta que não seja tão trivial quanto, possivelmente, tenha-lhe parecido a pergunta.

Diante de tal circunstância, não é raro que a pessoa “em questão” engasgue e gagueje, assim como quando nos deparamos com um exercício de trava-línguas pela primeira vez.

Partamos do princípio que estamos a falar da música, aquela que não tem forma, nem peso, nem cor, nem cheiro, nem gosto. Que é abstrata e subjetiva.

Nos textos anteriores, relacionados a esta coluna, além de escrever um punhado de besteiras, falei sobre a diferença entre ouvir e escutar, e apresentei — e isso não é nenhuma bobagem — alguns aspectos básicos a respeito da estrutura arquitetônica de uma música (ritmo, melodia, harmonia, timbre, intensidade, altura, duração). Fiz também um breve esboço a respeito de como a matéria abstrata (substância invisível) que constitui a música (o som) atua sobre nossas sensações, emoções e expressões. Lembrando que é através da simbolização (figuração dos sons musicais) que conectamos tal matéria à nossa imaginação.

Listei também alguns poucos exercícios para melhora da percepção musical.

Se o leitor seguiu minhas sugestões e praticou os exercícios propostos, é bem possível que sua percepção auditiva esteja mais sensível.

Diante destas poucas informações dadas até o momento, alguém se arrisca a descrever o que é música?

Tempos atrás, em um rompante repleto de loucura e entusiasmo, escrevi — sem tirar a “pena” do papel — o seguinte enunciado:

“No limiar substancial de toda beleza que nos acolhe, transmutando nossas mais íntimas sensações e os mais profundos sentimentos para dentro do cosmo, literalmente, em sua total plenitude incontestável, a música é o véu que suaviza os contornos de toda possível aparência, e ainda, melancólica, cativante, deslumbrante e sublime, representa a pluma suave que aconchega e conforta a alma que inexiste antes da própria música. O simples limiar é exatamente o ponto de chegada, onde o final, que é também o auge, surge de mãos dadas no momento exato com o início factível e, num processo incontrolável e imensurável, eleva nosso ser até alturas sem medidas, sem a necessidade de espera, busca ou preparo. Sem adereços, além da pura ocasião que penetra os ouvidos e transforma-nos na criatura mais pura em reflexo a proporcional felicidade contemplativa, a música penetra-nos; anima-nos e completa-nos.”

Quando terminei de escrever — e só aí é que fui ler com calma o que havia escrito — me espantei. Não me espantei com o texto em si, que ficou uma bela porcaria; espantei-me quando percebi que até então eu não fazia idéia de como eu descreveria o que é música.

Vejam só… Quase um quarto de século envolvido profissionalmente com a música e ainda assim não consigo descrevê-la com elegância, abrangência e/ou simplicidade. Há algo de errado aí, ou não?

“É verdade, literalmente, que “a melodia tem o poder de transformar o mundo inteiro”. Para sempre, a música irá permanecer como a linguagem universal de homens, anjos e espíritos” — O Livro de Urântia.

Na Grécia Antiga a palavra música tinha um sentido amplo, pois derivava da palavra musa (atribuída a cada uma das nove deusas, filhas de Zeus e Mnemósina, que dominavam a ciência universal e presidiam as artes liberais).

Para os gregos, a música era concebida na busca da beleza e da verdade.

Pitágoras e seus discípulos não tratavam a música e a aritmética como matérias separadas; os números, tais como o sistema de sons e elementos musicais eram considerados como a “chave de todo o universo espiritual”, mas foi Platão que expôs o sistema musical de forma mais complexa.

“Platão e Aristóteles estavam de acordo em que era possível produzir pessoas boas mediante um sistema público de educação cujos dois elementos fundamentais eram a ginástica e a música, visando a primeira a disciplina do corpo e a segunda a do espírito.” (A History of Western Music. Donald J. Grout e Claude V. Palisca. 1988)

Para Platão, o excesso de música tornaria o homem neurótico e afeminado, e o excesso de ginástica torná-lo-ia incivilizado, violento e ignorante. Platão foi incisivo quanto a necessidade de buscar o perfeito equilíbrio entre as duas disciplinas. Disse em sua República: “Àquele que combina a música com a ginástica na proporção certa e que melhor as afeiçoa à sua alma bem poderá chamar-se verdadeiro músico.”

* Sugiro que leiam o Timeu e a República.

Segundo Platão (deixando a sistematização para sua leitura dos diálogos indicados) “A música é um meio mais poderoso do que qualquer outro porque o ritmo e a harmonia têm a sua sede na alma. Ela enriquece esta última, confere-lhe a graça e ilumina aquele que recebe uma verdadeira educação”.

Alguns pensadores gregos acreditavam que a música estava conectada com a astronomia. Acreditava-se que certos modos, notas ou intervalos correspondiam a alguns planetas do cosmo.

Para Cláudio Ptolomeu (século II d.C.), que era o mais importante astrônomo da antiguidade, e também o mais sistemático entre os teóricos da música, a matemática regia tanto a teoria dos intervalos musicais quanto a teoria do sistema dos corpos celestes.

Não foram poucos os grandes pensadores que emitiram considerações a respeito da música, e apesar da beleza poética em seus enunciados, nem todos conseguiram expressar o que é música de uma maneira sintética e abrangente…

Dante chegou a comparar a música ao planeta Marte…

Plotino considerava a música como um dos caminhos para ascender a Deus.

Aristóteles disse que “a música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição”.

Shakespeare dizia que “o homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, de conjuras e de rapinas.”

Segundo Hegel “o que principalmente caracteriza a música é o vai e vem, a subida e a descida, movimentos harmônicos e melódicos, a progressão mais ou menos retardada, mais ou menos acelerada, ora profundamente penetrante e incisiva, ora ligeira, fluente, em suma a elaboração de uma melodia por todos os meios musicais, o acorde engenhoso dos instrumentos na sua consonância, sucessões, alternâncias, perseguições recíprocas.”

Nietzsche acreditava que “sem a música, a vida seria um erro.”

Schopenhauer falava que “a música é um exercício de metafísica inconsciente, no qual o espírito não sabe que faz filosofia.”

Philip Glass, “ícone” do minimalismo, declarou que música é troca, diálogo, compartilhamento: em seu âmbito consciente, é a troca de pensamentos, e em seu âmbito inconscientemente, é a troca de sentimentos.

Na visão de Victor Hugo “a música expressa o que não pode ser dito em palavras mas não pode permanecer em silêncio”.

Para Aldous Huxley “depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.”

E nós, o que dizemos?

Não é estranho que tenhamos paixão por algo (todos aqui têm paixão pela música, certo?) que não sabemos exatamente o que é? Que não conseguimos caracterizar… Bem, se você têm duvidas quanto a isso: se esta minha afirmação é verdadeira ou não, quando digo que não sabemos exatamente o que é a música, experimente descrevê-la de uma forma que não se possa contestar.

Em rápida pesquisa na internet, encontrei inúmeras trivialidades:

– A música é o que nos dá prazer.

– A música é a voz da alma.

– A música é alguma coisa divina.

– A música é aquilo que se ouve.

– A música é puro sentimento.

– A música é amor.

– A música é isso…

– A música é aquilo…

Murray Schafer, um compositor canadense, certa vez fez esta mesma pergunta (o que é música) a um grupo de alunos. As respostas foram tão variadas quanto vagas.

– Música é alguma coisa de que você gosta.

– Música é som agradável ao ouvido.

– Música é uma atividade cultural relativa ao som

– etc.

Vejamos…

Se música “é alguma coisa de que você gosta”, suponhamos então que você seja um pagodeiro, por exemplo, e que o estilo pesado do Heavy Metal não agrade os seus ouvidos. Seria correto dizer que o Heavy Metal não é música? Ou o mais certo seria apenas você (como indivíduo) assumir que tem um péssimo gosto e não gosta deste estilo de música?

Se música “é som agradável ao ouvido”, o que dizer a respeito de algumas trilhas sonoras de filmes de terror que valem-se de sons tenebrosos e aterrorizantes? Tais sons são agradáveis aos seus ouvidos?

Se música “é uma atividade cultural relativa ao som”, é correto dizer que um bando de torcedores de futebol, gritando feito loucos (produzindo sons), estão fazendo música?

As respostas dadas pelos alunos de Schafer não foram muito diferentes das que obtive em todas as vezes que indaguei a algum aluno ou conhecido a respeito do que é música. Em geral as respostas não fogem muito destes conceitos; nem no dicionário.

Segundo o Dicionário Priberam:

# música

#1. Organização de sons com intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, variáveis de acordo com o autor, com a zona geográfica, com a época, etc.

#2. Arte e técnica de combinar os sons de forma melodiosa.

#3. Composição ou obra musical.

Que tal invertermos a linha de raciocínio por um momento? No lugar de pensarmos o que é música, vamos analisar o que não é. Perceba que a resposta é bem mais simples, pois se resume em uma única palavra.

O som que não pode ser música é considerado ruído! Simples assim.

# ruído

#1. som ou conjunto de sons, freq. desagradáveis ao ouvido, causado por queda, choque, pancada etc.; barulho, estrondo, estrépito <essa máquina faz muito r.>

#2. rumor contínuo e prolongado; bulício

#3. som confuso, indistinto (como o de muitas vozes reunidas)

Sabe-se que o sistema auditivo, o qual traduz as vibrações de ar em sons, é constituído de dois componentes: um periférico e um central — sistema que filtra, amplifica, e ajusta o som de acordo com o funcionamento das células sensoriais. Sendo que o sistema auditivo periférico é formado pela orelha externa, média e interna, e o central pelo cérebro e vias nervosas.

A orelha externa e média são responsáveis por recepcionar as freqüências e transmiti-las a orelha interna — nós, humanos, ouvimos entre as freqüências de 20 a 20.000 Hz, com um pico entre 500 a 5.000 Hz. Já o sistema central — o qual é extremamente complexo e portanto não vou tentar explicá-lo aqui, pois teria de estender este texto em demasia — é responsável por analisar os sons. Tal análise é que nos permite reconhecer os sons musicais — harmonias, melodias, ritmos.

Sabe-se também que o som é conseqüência de vibração de ar.

Quando a vibração é regular, temos um som de altura definida, ou seja: temos um som musical — voz humana, canto dos pássaros, sons emitidos por instrumentos musicais, etc.

Quando esta vibração é irregular, temos um som de altura indefinida, ou seja: temos um ruído — trovão, turbina de um avião, motor de um caminhão, explosão, etc.

obs. Alguns compositores contemporâneos utilizam diversos tipos de ruídos em suas composições.

Gosto não se discute!? …

Cabe aqui uma ressalva: a maioria dos instrumentos de percussão produzem sons com altura indefinida, no entanto tais sons não são considerados ruídos, e sim: sons percussivos.

Schopenhauer dizia que “a sensibilidade do homem para a música varia inversamente de acordo com a quantidade de ruído com a qual é capaz de conviver”.

O que sei é que mesmo os pequenos ruídos tornam-se insuportáveis conforme nossa percepção auditiva torna-se mais sensível.

Sendo assim, podemos concluir que um som, para ser musical, necessita apenas ressoar em uma freqüência definida.

No fim das contas, definir o que é um som musical e o que é apenas um ruído nos ajuda a definir o que é música? Naturalmente que não.

Moral da história…

A bem da verdade, não importa se você consegue definir o que é música ou não.

O que realmente importa neste caso é a busca pelo autoconhecimento.

Na tentativa em definir o que é música você acaba olhando para dentro de si próprio, pois só é possível descrever o significado de uma matéria abstrata quando compreendemos como tal matéria nos afeta, e é aí que a música ganha ainda mais importância.

Sabemos que a música tem o poder de acessar nossos sentimentos e emoções, provocando diversas reações, e quando passamos a compreender as formas de conexão entre o som e nossa imaginação é que enxergamos os caminhos que nos levam até a essência de nossa própria personalidade.

“O homem que se encontra, se enxerga e se compreende, passa a ser a música que alegra o mundo.”

Peço licença para expor um trecho do meu diário filosófico, para que o leitor, após analisar, faça analogia com o tema deste artigo:

Deus e a Felicidade

“A felicidade não é um emblema pessoal estampado na face de um indivíduo, tampouco um troféu que se guarda em um armário, ou sequer um estado permanente dos sentidos, pois trata-se de um sentimento transitório como todos os outros que existem; dor, amor, paixão, terror, etc. e etc. Alguns sentimentos permanecem efetivos por pouco tempo, outros não, e, tão claro é que, além da referência ser abstrata e subjetiva, você não tem controle. Já a BUSCA pela felicidade, apesar de a própria palavra “busca” indicar movimento, isolando a possibilidade de ser um estado permanente ou sequer estático, pode ser, de acordo com sua determinação e coragem, um estado constante; uma busca constante e uma movimentação incansável no encalço do que lhe apraz.

Muitos não percebem, mas no simples ato de “buscar a felicidade” está embutido a alegria mesma de já “tê-la encontrado”. É como ocorre com relação a Deus: se você pensa em procurá-lo, é porque já o encontrou. Mesmo no caso de o “buscador” não tomar para si esta sentença, ou acontecendo de o mesmo não perceber os seus esforços como tal, ainda assim, este se beneficiará do aperfeiçoamento moral empírico na decisão tomada.”

O que é música?

“A música é — em sua própria manifestação — a arte de combinar sons de maneira organizada e equilibrada, adequando as possíveis combinações simultânea e/ou sucessivamente, dentro de suas propriedades, proporções e estruturas de tempo; despertando sentimentos, sensações e expressões, e conectando, através dos sentidos auditivos, sua matéria abstrata à nossa imaginação.”

Um grande abraço! Até breve!

Ricardo Altava

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