“Eu sou um túmulo, um ícone. Seikilos me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal”

O Epitáfio de Sícilo é o mais antigo registro de uma composição musical completa — contendo notação musical e letra — que se tem notícia. Foi encontrado em uma lápide perto de Aidin, na Turquia, próximo a Éfeso.

O texto transcrito para o grego moderno:

Hoson zés, pháinou

Medén hólos sý lýpou

Pros olígon estí to zén

To télos ho khrónos apaitéi

A partitura de Sícilo, se traduzida para notação moderna, seria assim:

Existem registros mais antigos que o Epitáfio de Sícilo (Seikilos), porém não são completos: são apenas fragmentos.

A notação musical abrange qualquer sistema utilizado para representar a música através de elementos gráficos e/ou simbólicos, que tem como unidade fundamental a nota.

“Um poema escrito não abrange todo o sentimento do poeta, assim como uma música escrita não abrange toda inspiração do músico, entretanto, a notação, seja do poema, seja da música, é uma das maneiras do artista perpetuar e espalhar sua arte”.

Atentem-se a descrição de uma peça musical sem sua simbolização (notação musical):

“A melodia começa no quinto grau da escala maior, com uma nota longa seguida de uma curta, repetida; então, passa da sexta para a quinta, e dá um salto para cima, de uma quarta até a oitava, antes de cair meio tom. A primeira repetição dessa idéia é igual, a não ser pelo salto para cima, que agora é uma quinta, seguida por uma queda de um tom inteiro. Na terceira vez, é seguida por um salto de uma oitava para cima (um intervalo pequeno que se torna grande), e, onde a melodia previamente caiu um tom, agora cai dois, com uma dissonância saliente sobre o nome da pessoa, prolongando-se um ritmo forte. A frase final repete a letra da abertura, em um tom dissonante, caindo um tom, saltando para baixo, e mais outro tom. Uma dialética bem construída de saltos e variações tonais, para cima e para baixo, tons de repouso e movimento, alternando ritmos fortes e fracos, que nos transportam sem esforço em uma pequena viagem: uma lenta e esforçada subida, e uma suave cascata para baixo, saltando de pára-quedas para a tônica da peça”.

Podê-lo-emos  executar esta peça em algum instrumento musical, ou compreendê-la em sua plenitude, com base nesta descrição de seus pormenores? Evidentemente que não. Entretanto se tivéssemos em mãos a notação musical referente, poder-se-íamos interpretá-la sem maiores problemas.

Há quem pense diferente…

Segundo Jacques Handschin, “estudioso” da música e autor de diversas “obras” relacionadas, “a notação é um sintoma de um debilitamento no sentido musical”. Handschin enfatizou que “a memória musical, notavelmente fiel onde se impões a tradição oral, se enfraquece e se degrada sob a influência da notação.” Também disse que “criando uma categoria de músicos executantes, distintos dos criadores, ela (notação) acentua uma especialização prejudicial à cultura musical coletiva. Privilegiando a partitura, a ponto de fazer dela o objeto por excelência da música, ela precipita o declínio dessa cultura”.

O senhor Handschin “observou” que, “a partir do século XVI, a notação se tornou soberana e a partitura precisa e tirânica”.

Pois bem… Parece-me nítido que falta ao senhor Jacques a visão panorâmica do assunto.

Auto copiando-me: “Os movimentos harmônicos, melódicos e rítmicos, formam a significação simbólica da música. Tais elementos invadem a psique humana com suas formas abstratas, e conectam as sensações aos significados”.

Ok! Como transmitir os “símbolos musicais” a uma orquestra, por exemplo, sem a notação musical?

“Os sistemas de notação musical existem há milhares de anos. Foram encontradas evidências arqueológicas de escrita musical praticada no Egito e Mesopotâmia por volta do terceiro milênio a.C.. Outros povos também desenvolveram sistemas de notação musical em épocas mais recentes. Os gregos utilizavam um sistema que consistia de símbolos e letras que representavam as notas, sobre o texto de uma canção…”

[https://pt.wikipedia.org/wiki/Notação\_musical#Origem]

É bem possível que o senhor Handschin não tenha considerado a importância da notação musical em sua plenitude, pois, não fosse pela notação musical, a história da música estaria ainda mais debilitada, e inúmeras belíssimas obras musicais (passíveis de reinterpretações atuais para o nosso deleite — como o Epitáfio de Sícilo, por exemplo) estariam perdidas no tempo. Sem falar na dificuldade que teria um compositor ao tentar “distribuir” suas idéias sem o auxílio de uma notação adequada.

Entristece-me pensar que o senhor J. H possa ter registrado tal opinião analisando apenas uma pequena parcela da questão, e me entristece ainda mais pensar o contrário: que sua análise possa ter ido muito além da superficialidade de sua impressão.

Há casos em que professores colocam a teoria musical e seu sistema expositivo em primeiro plano, antes da musicalização adequada do aluno — antes de despertar noções rítmicas, melódicas, harmônicas e cognitivas —, o que possibilita validar a “impressão” do senhor J. H, mas apenas em partes, e jamais em amplitude. Outro ponto a considerar é com relação à performance de alguns músicos que, dependentes da notação musical atuam como meros “robôs”, sem expressão e sensibilidade. Ainda assim são casos isolados.

No meu cotidiano musical, exercendo o meu papel de professor, tomo o devido cuidado e analiso cada questão, exaurindo minhas possibilidades e capacidades, para só depois passá-las adiante, de maneira organizada e equilibrada, dentro de sua abrangência. Por exemplo, com relação à notação: Antes de apresentar as formas de escrita musical aos meus alunos, eu trabalho a música em seu contexto puramente sonoro, na tentativa de evitar o desvio de atenção inicial — que no meu ver deve ser exclusiva ao desenvolvimento auditivo e cognitivo — para o papel ou quadro negro. Mas esta minha preocupação com o desvio de atenção inicial não está de maneira alguma relacionada a qualquer questão que venha desmerecer a notação musical. Muito pelo contrário. Vejo a notação — assim como todo o sistema musical — como parte integrante das maiores criações intelectuais do homem.

Espanta-me a colocação do senhor Jacques, e me espanta ainda mais saber que ele não está sozinho.

Segundo Roland Candé: “Os sistemas de notação e de composição se desenvolvem juntos, por interação. Quanto mais a notação é complexa, mais a teoria se torna arbitrária e rígida. As regras impõe esquemas rigorosos e inteligíveis (racionais), a que o músico profissional se adapta necessariamente: a música é obrigada a se tornar tal que possa ser notada, o que não exclui a perigosa ambição de compor tudo o que se puder escrever. A decadência da música grega vem, em parte, daí, e os linguistas poderiam evocar Saussure, denunciando o perigo de a escrita contaminar a linguagem”. História Universal da Música – Roland de Candé.

O simples fato de o senhor Candé citar Saussure como alguém a quem se possa denunciar algo, atribuindo-lhe qualquer tipo de autoridade, demonstra toda sua incapacidade de qualquer julgamento.

Será que o senhor Candé pensava que a música surgiu após o sistema de notação, e não o contrário? E desde quando a existência de um “mapa” minucioso torna a viagem “rígida”?

Dizer que a complexidade de uma notação torna a teoria arbitrária e rígida é pueril. Tal como dizer que “a música é obrigada a se tornar…” ou que “o músico profissional se adapta necessariamente…” A música não é obrigada a nada, tampouco o músico. A música nasceu antes de sua teoria e notação, e não o contrário. A notação musical não é arbitrária, em oposto, é libertadora. Sem a notação musical o compositor não poderia jamais explanar a plenitude de suas ideias e “reparti-las” com outros músicos. Oras…

Pois bem… Deixemos as incoerências de Candé e de Handschin para mais tarde, pois não tenho intuito de afagá-los em consolo.

Obs. Não pense o leitor que estamos nos afastando de nossa questão inicial: “Por que a música atual é tão ruim?”, pois estamos exatamente no caminho, que é extenso e cheio de paradas para o “café”.

A cerca de 2.500 anos atrás, enquanto caminhava, Pitágoras ouviu o som de algumas marteladas e — curioso como todo matemático — sem pestanejar, foi até o ferreiro que golpeava uma bigorna com seu martelo. Pitágoras não demorou perceber que os tons resultantes das pancadas oscilavam de acordo com o peso do martelo: um martelo mais pesado produzia um som mais baixo (grave) que um martelo mais leve, que por sua vez emitia um som mais alto (agudo). Comparando o som de um martelo que pesava exatamente a metade do outro, o filósofo chegou a conclusão que o martelo mais leve produzia o som de uma nota duas vezes mais alta; ou seja: uma oitava acima. Partindo desta primeira conclusão, Pitágoras se embrenhou em uma infinidade de experimentos, até que chegou aos cálculos que deram origem a série harmônica.

Falaremos a respeito dos cálculos pitagóricos referentes a “série harmônica” em outro momento, entretanto vale aqui uma pequena menção: Após Pitágoras chegar aos cálculos que deram origem a série harmônica é que surgiram as escalas musicais, o que levou de maneira empírica ao desenvolvimento da notação musical.

Qualquer tentativa de expor de maneira pormenorizada o sistema de notação musical ultrapassaria o âmbito e propósito desta coluna, entretanto uma exposição básica das 3 formas de escrita utilizadas nos dias atuais será útil para que o leitor possa acompanhar toda exposição.

Sendo assim, trataremos dos aspectos mais básicos da notação musical e acrescentaremos novos detalhes de acordo com o surgimento da necessidade para tal.

Formas de escrita musical

1- Cifra

2- Notação Musical Padrão

3- Tablatura

Conhecimento básico

Antes de adentrarmos às questões teóricas em sua essência, é preciso uma breve introdução sobre as formas de escritas que vamos utilizar durante o desenvolvimento desta coluna, para que todos os leitores estejam familiarizados com a linguagem musical utilizada, de uma maneira geral.

Antes de mais nada, vamos relembrar as 7 (sete) notas da escala natural.

Todos já devem ter ouvido, e/ou até cantarolado, em algum momento da vida, as sete notas que formam a escala natural.

Dó     Ré   Mi     Fá     Sol   Lá     Si

Obs. O conjunto destas sete notas é conhecido como “Escala Natural”, por não conter nenhum acidente em sua formação. Falaremos sobre acidentes musicais mais para frente.

Cifra

“Cifra é um sistema de notação musical usado para indicar, por meio de símbolos gráficos ou letras, os acordes a serem executados por um instrumento musical (como uma guitarra, ou um violão por exemplo). As cifras são utilizadas principalmente na música popular, acima das letras ou partituras de uma composição musical, indicando o acorde que deve ser tocado em conjunto com a melodia principal, ou ainda para acompanhar o canto.

Este tipo de notação ou cifragem indica ao executante o acorde que ele deve construir, mas deixa a sua sensibilidade musical ser responsável pela maneira exata na qual ele executará os acordes. Isso ocorre pelo fato de cada acorde ser composto por duas ou mais notas tocadas ao mesmo tempo, sendo que essas notas podem se localizar em diferentes regiões de um instrumento, o que possibilita muitas opções distintas se formar um mesmo acorde.” Texto extraído da Enciclopédia Livre: Wikipédia

No sistema de cifragem, cada uma das sete notas da escala natural é representada por uma das sete primeiras letras do alfabeto.

Resultado: Dó (C); Ré (D); Mi (E); Fá (F); Sol (G); Lá (A); Si (B).

Uma maneira prática de memorizar a representação de cada nota é pensar na escala partindo da nota Lá, no lugar da nota Dó.

Resultado: A (Lá); B (Sí); C (Dó); D (Ré); E (Mi); F (Fá); G (Sol).

Além do sistema de letras, utilizado para representar as notas musicais na forma escrita, utiliza-se também alguns símbolos – como o (#) Sustenido, que aumenta a nota em um semitom, e o (b) bemol, que diminui a nota em um semitom.

Obs. A distância de uma tecla de um piano a outra, ou de uma casa de um instrumento de corda a outra, equivale a um semitom.

Notação Musical Padrão

O sistema de notação musical existe há milhares de anos. Alguns arqueólogos encontraram as primeiras evidências por volta do terceiro milênio a.C.. Os gregos, por exemplo, utilizavam um sistema de símbolos e letras para representar as notas musicais. Um dos exemplos mais antigos deste tipo é o epitáfio de Sícilo, que foi encontrado em uma tumba na Turquia e exposto logo no início deste artigo.

Mas, os Romanos fizeram o favor de invadir a Grécia e acabar com tudo…

No canto gregoriano, em meados do século VIII, as notas eram representadas por símbolos, no intuito de auxiliar a memória musical. Estes símbolos eram chamados: Neumas. Os Neumas eram pontos e traços que representavam intervalos e algumas regras de expressão. Era um sistema falho, pois só servia como lembrete para aqueles que já conheciam a música em questão, pois os símbolos não representavam a altura das notas.

A primeira pauta era composta de apenas uma linha, utilizada para representar as alturas. Com o tempo o sistema evoluiu até uma pauta de quatro linhas, chamado Tetragrama. As claves, que permitiam alterar a extensão das alturas das notas representadas, já foram introduzidas neste sistema de quatro linhas. Como inicialmente o sistema não representava as durações das notas, as mesmas eram colocadas de maneira organizada, exatamente sobre o texto cantado. Só em meados do século X, que quatro figuras diferentes entre si foram introduzidas, no intuito de representar diferentes durações entre notas.

Guido D’Arezzo foi, além de monge italiano e regente do coro da Catedral D’Arezzo (Toscana), o criador do sistema de notação moderna, e foi quem deu nomes as notas musicais, que inicialmente eram: ut, re, mi, fa, sol, la e san, retirados de parte de um texto sagrado escrito em latim, que compunha um hino feito em homenagem a São João Batista, filho de Zacarias e Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus. Para quem não sabe, João Batista era um pregador fervoroso que foi decapitado a mando de Herodes Antipas, aquele tolo que cedeu aos caprichos de uma mulher maligna.

  • Ut queant laxis
  • Resonare fibris
  • Mira gestorum
  • Famuli tuorum
  • Solve polluti
  • Labii reatum
  • Sancte Ioannes

Esta imagem refere-se ao tetragrama, que foi muito utilizado para escrever os cantos gregorianos, e que antecedia ao pentagrama, utilizado até os dias atuais.

A pauta, que na idade média era composta de apenas uma única linha, foi aperfeiçoada por Guido D’Arezzo, que transformou-a em um sistema de 4 (quatro) linhas – muito utilizado para se escrever os cantos gregorianos – e este sistema só ganhou uma quinta linha a partir do século XV.

O pentagrama é composto por cinco linhas e quatro espaços, onde são escritas as notas musicais.

Claves são símbolos colocados no início de uma pauta, e servem exclusivamente para dar nome, designar altura das notas musicais e indicar a localização exata de uma nota dentro do sistema de linhas (Pentagrama).

No passado, com intuito de evitar o excesso de linhas suplementares, utilizava-se uma variedade muito grande de localização das Claves, o que obviamente acabava confundindo a leitura – o que era para facilitar, acabava atrapalhando. Entretanto, com o passar do tempo passamos a utilizar apenas quatro tipos de Claves: Clave de Sol, Clave de Fá, Clave de Dó e a Clave Neutra.

Claves usadas no passado

Clave de sol

  • A clave de Sol é utilizada para representar as notas mais agudas, e indica que a nota Sol é escrita na segunda linha do Pentagrama (contadas de baixo para cima).

  • Com referência a Clave de Sol, o Dó central do piano ocupa a primeira linha suplementar inferior.

Clave de Fá

  • A clave de Fá é utilizada para representar as notas mais graves, e indica que a nota Fá é escrita na quarta linha do Pentagrama.

  • Com referência a Clave de Fá, o Dó central do piano ocupa a primeira linha suplementar superior.

Clave de Dó

  • A clave de Dó é utilizada para representar as notas médias, indicando que a nota Dó é escrita na terceira linha do Pentagrama.
  • Um dos únicos instrumentos que ainda utilizam desta Clave em sua escrita é a Viola.

Clave Neutra (ou de Percussão)

  • Apesar de esquecida na grande maioria dos métodos expositivos de Teoria Musical, a Clave Neutra (Quarta Clave, como costumo chamar) é muito utilizada, e merece a nossa atenção.

Esta clave representa as “peças” dos instrumentos, e não é utilizada para escrever notas, pois não permite representar alturas.

A Clave Neutra é utilizada na escrita representativa dos instrumentos de percussão, os quais não emitem sons com alturas definidas (como a Bateria, por exemplo). Alguns instrumentos de percussão que possuem afinação, como é o caso do Tímpano, tem sua escrita representada na Clave de Fá.

Tablatura…

A “Tablatura” é um sistema de notação musical muito utilizado para instrumentos de cordas, composto de linhas (referentes as cordas de cada instrumento), nas quais, através de números e sinais, são indicadas as casas e cordas, mostrando exatamente aonde o músico deve colocar os dedos no seu instrumento.

Obs. lembrando que o número de linhas de uma tablatura é variável de acordo com o número de cordas do instrumento em questão.

Vamos observar algumas formas do acorde de Dó Maior (C), em alguns instrumentos.

Piano

Violão

Contrabaixo

Ukulele

Bandolim

A descrição no início deste texto é da música “Happy Birthday” (Parabéns para você). Quadrivium – John Martineau (org.) É realizações 2014.

As imagens do Epitáfio de Sícilo e do Tetragrama foram extraídas do site Wikipédia.

Um grande abraço! Até breve!

Ricardo Altava

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