Aos dez anos de idade eu já encarava o meu primeiro emprego… Aquém da honra precedida e do orgulho concedido, a experiência não foi das melhores, mas isso pouco importa: pois foi uma experiência real. Eu estava lá! (ao menos em carne e osso). O que importa é que depois de algum tempo tal experiência me valeu, inclusive, algumas boas risadas.

Fui contratado, sem cerimônias, como ajudante geral, com título de balconista, em um bazar próximo de casa, daqueles que vende de quase tudo e que emprega quase todo mundo que queira trabalhar; não importando a idade, tampouco a capacidade, desde que a pessoa tenha coragem e se submeta.

“Fazer de tudo, às vezes é quase o mesmo do que não fazer nada.”

Eu poderia dizer que fui atingido por um sentimento precoce naquele momento, desses que nos submetem a certa obrigação moral para com a família e sociedade, honrando e dignificando, etc. e blá, blá, blá, mas não sou adepto à mentiras. Eu aceitei o emprego (na verdade: implorei por ele) simplesmente para ficar próximo de uma das funcionárias, para a qual eu jogava meu charme de garoto de 10 anos toda vez que perambulava pelo bazar. Era uma menina linda, de olhos castanhos, cabelos cacheados, bochechas rosadas e com um tom de voz quase mudo. Tinha por volta de “um metro e meio” de altura, e aparentava ser mais velha que sua idade real: tinha 13 e sua silhueta era de 14, ou 13 e meio; que seja.

Já no primeiro dia de trabalho sofri de um súbito arrependimento, logo que soube de todas às inúmeras funções que eu teria de exercer e da mísera quantia que receberia para executá-las; sem falar no fato: não é nada fácil jogar charme a alguém enquanto se varre o chão, limpa vitrine, dobra roupas e empilha caixas e mais caixas — e ainda por cima ter que manter o sorriso à cada cliente que chega só para infernizar e pechinchar. Mas aguentei firme e forte, durante toda uma extensa semana.

Como estávamos perto do dia dos pais, usei todo o meu salário — que só era suficiente — para comprar um par de meias ao meu excelentíssimo e amado Pai (quando escrevo sobre o meu Pai, é sempre com letra maiúscula) — após alguns anos minha Mãe me confidenciou que as meias chegaram furadas, e que me esconderam este fato para não me chatear.

No decorrer daquela semana pude perceber que a menina não me dava bola, e que aqueles sorrisinhos de antes era pura tentativa de me vender bolinhas de gude ou times de futebol de botão. Foi aí que decidi juntar-me aos amigos e jogar futebol, até que:

Tarde para os meus tempos e cedo demais para os dias de hoje, comecei a trabalhar com registro em carteira aos 15 anos de idade — mesma época em que ganhei, de um tio muito querido, um violão e iniciei os meus estudos musicais.

Era uma empresa fabricante de Tíner, com nome de carro importado; uma cambada de vagabundos sem-vergonha que até hoje me devem dinheiro; um bando de safados. Eu exercia o cargo de arquivista. Ganhava uma miséria, esfolava os dedos nas pastas velhas, vivia empoeirado, carregava malotes, picotava documentos antigos, servia café para os chefes, ouvia inúmeras piadas pelo tanto que comia no almoço, e ainda era obrigado a usar gravata. Eu fazia tudo o que um garoto de 15 anos que sonhava em tocar guitarra não desejava fazer.

Recebia uma miséria, mas eu tinha objetivos e sonhos. Juntei alguns meses de salário e comprei minha primeira guitarra. A falta de experiência no assunto era tamanha, e no lugar de eu ir testar a guitarra, pedi a um amigo para comprá-la. Ele trouxe-a. Era linda! Vermelha! Brilhava como fogo! Perfeita! Pena que estava toda esfolada… Mas, foi o que a quantia de dinheiro que eu tinha permitia comprar.

Independente dos ralados na pintura, apaixonei-me pela guitarra. Acariciava-a de um modo que poucos homens fazem com uma mulher. Ficava na frente do espelho fingindo ser o Kurt Cobain, afinal, eu só tinha quinze anos, e eram os anos 90. Até que meu pai chegou do trabalho e fui correndo mostrar a guitarra, com uma alegria que não cabia em mim.

Aí, para minha decepção, ele disse:

— Como pôde comprar esse lixo? Está toda ralada! Vá devolver!

Pensei: “Mas o dinheiro é meu…”

Entretanto, como sempre respeitei (e respeito até hoje) meu Pai, calei-me. Foi quando ele mandou chamar o amigo que havia comprado a guitarra.

— Amanhã você pode ir comigo até a loja em que comprou esta guitarra? Pois vou devolvê-la.

Dito e feito.

No dia seguinte, um sábado frio e cinzento, antes das 09:00 estávamos a caminho da loja.

Eu olhava para ela, ela permanecia calada; sofríamos em silêncio — eu com desejo de tocá-la, e ela de ser tocada. Aquela única noite que passamos juntos foi o suficiente para despertar o nosso amor, mas…

Naquela época éramos criados como Homens. Eu mesmo fui criado com regime de choro: Homem que é Homem não chora! Sendo assim, procurando no fundo da alma um tanto de frieza, me contive e seguimos a caminho da loja.

Chegamos…

— Quem é o gerente? — Perguntou meu Pai.

— Vou chamar — respondeu um rapaz.

— Vim devolver esta guitarra! Ela está toda ralada! Não quero que meu filho fique com ela.

— Sim… senhor… não tem problema — disse o gerente, tremendo.

“Uma voz de homem, quando bem impostada, possui inúmeros poderes.”

Não posso dizer que foi fácil, pois mesmo com criação conservadora e masculina, destas que não da brecha para frescuras e lamúrias (nada de franja escorrida na testa e lágrimas descendo dos olhos; nada de psicólogo que não entende bulhufas, tampouco mentiras para esconder a verdade), senti enorme tristeza em ter de devolver a guitarra.

Mas a rigidez do meu Pai sempre esteve em favor do bem; do melhor para sua família, e não tardou surgir a luz que eu — subconscientemente — aguardava:

— Se eu pagar a diferença ele pode escolher uma guitarra melhor?

— Mas é claro! — A tremedeira cessara, e surgia a euforia.

— Filho? — Meu pai afagou minha cabeça com suas mãos gigantes e ásperas. — Escolha uma boa guitarra! A melhor que encontrar nesta loja!

Quando ele disse tais palavras eu já estava com os olhos vidrados na guitarra roxa com ponte flutuante, e já me imaginava como o Eddie Van Halen. Sim! Eu só tinha 15 anos, e nesta idade quase sempre desejamos ser outra pessoa.

Naquele momento, quando peguei a guitarra roxa nas mãos, já havia esquecido por completo da minha ex-paixão: a guitarra vermelha. Uma eterna paixão que durou apenas um dia.

Voltei para casa com a melhor guitarra da loja e com o melhor Pai do mundo!

Depois de alguns anos, naturalmente, eu comprei outras guitarras bem melhores, desisti de querer ser o Eddie Van Halen e optei por ser eu mesmo, mas aquela guitarra roxa com ponte flutuante, foi a qual marcou minha vida.

Hoje eu vivo com uma guitarra nas mãos. Sustento a minha família e meus sonhos com uma guitarra nas mãos. Fiz do meu passatempo a minha profissão. Mas para isso, trabalhei muito, desde muito cedo.

Hoje aquela guitarra roxa com ponte flutuante enfeita uma das paredes da minha sala.